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Fé no poder que vem das bases, uma história…

Por admin

  • 17 fev 2025
  • 4 min de leitura
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Estávamos sentados no gramado de um parque público do Rio de Janeiro. Eu me preparava para o primeiro encontro presencial da primeira turma do projeto Fé no Poder que vem das Bases. A proposta era ousada: produzir diálogo e reflexão sobre temas sensíveis entre pessoas de diferentes espectros do cristianismo. O nervosismo que se apoderou do meu corpo naquele momento era difícil de compreender e ainda mais de explicar. Eu precisava conduzir a reunião e tinha a sensação - provavelmente equívocada - de que qualquer palavra fora do lugar colocaria toda a delicada relação - construída com muito esforço pela nossa articuladora religiosa - a perder.

O que eu tinha preparado naquele dia era simples, escolhi alguns sapatos na minha casa, levei-os comigo, espalhei pelo gramado do parque e convidei cada liderança a vestir um dos sapatos e andar, por alguns minutos, usando os pés de outra pessoa. Eu lhes solicitei que imaginassem quem era aquela "pessoa" dona do sapato. Num primeiro momento conversamos sobre esses sentimentos, sobre o que eles imaginavam. Em seguida, entreguei uma carta referente a cada sapato contando a história do dono ou da dona do sapato. Novamente, os convidei a caminhar pelo parque agora, com mais informações sobre aquela pessoa, e pedi que refletissem como essa nova informação os havia atravessado.

Trocar de perspectiva e descentrar nosso olhar é um exercício crucial para a empatia. Esse era o meu mote inicial: produzir uma atividade pedagógica que impusesse a eles uma alteração de "ponto de vista". Após voltarmos a calçar nossos próprios sapatos, fizemos a segunda parte do exercício, olhar para o texto bíblico calçando novos sapatos, vestindo-nos de novas lentes. Eu estava diante de um grupo cristão composto por 40% de católicos e 60% de evangélicos, em sua maioria mulheres, todos de comunidades periféricas, cada um de um espectro político diferente, a Bíblia talvez fosse nosso único ponto de contato comum - e veja bem, isso não significa que nós concordávamos sobre como ler o texto, ao contrário. Porém, todos aceitávamos que o texto ainda tinha algo para nos dizer.

O texto do livro de Gênesis que conta a história de uma das concubinas de Abrão foi o pontapé inicial de nossa discussão. A figura de Hagar ou Agar foi nosso motor para o exercício hermêutico de trocar os sapatos com os dela e imaginar-nos na sua pele. Abrão é um patriarca importante da fé cristã e do cânon bíblico, por isso, as narrativas que recebemos sobre esse "herói da fé" com facilidade se cristalizam apenas reforçando suas qualidades. Como já tínhamos feito o exercício na prática anteriormente, ficou mais fácil discutirmos como a personagem Hagar se sentiu naquele momento.

Esse primeiro encontro presencial marcou o grupo, e a mim também como coordenadora pedagógica. O diálogo é um exercício crucial para a manutenção da democracia, porém, o diálogo não é uma realidade dada - especialmente diante da enorme polarização à qual a realidade brasileira está submetida. Ao contrário, diálogo é um elemento a ser recuperado, construído e oportunizado. O desafio que se impunha nos gramados do Aterro do Flamengo era justamente propor como pessoas tão diferentes poderiam encontrar caminhos de promoção de justiça e empatia juntas. Em muitos sentidos eu acredito que o desafio que vivemos naquele sábado é apenas um reflexo das tensões e complexidades da manutenção de um regime democrático.

Agnes Alencar é coordenadora pedagógica do projeto Fé no Poder que vem das bases. Historiadora, doutoranda em ciência da religião pela UFJF, atua no ISER desde 2022, quando começou a integrar a equipe do projeto.